sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Primeiro livro de Cecília Meireles "Epectros"


Espectros foi o primeiro livro de poesias de Cecília Meireles, publicado em 1919, provavelmente à custa da própria autora e em diminuta tiragem. Trazia um prefácio de Alfredo Gomes.

Fazendo jus ao nome, a obra tornou-se fantasmagórica: nunca reeditada ou sequer localizada, sobre ela correu a lenda de que, afinal, nem teria existido. Contra essa suposição depõe um breve artigo de João Ribeiro, bastante simpático ao livro, e publicado em O Imparcial, de 18 de novembro de 1919, em que vaticina um belo futuro para a jovem estreante.


Com Espectros, foi revelada uma nova e insuspeitada face de Cecília Meireles, de acentuada fatura parnasiana. Há também ecos dos poetas simbolistas, fase esta que foi renegada pela autora. A obra é formada por um conjunto de 17 sonetos históricos rimados, em decassílabos ou alexandrinos, e que, em sua maioria, evocam celebridades da história universal e da religião católica. Vejam, a seguir, como a estreante Cecília elaborou sua versão da figura mítica de Joana d’Arc:


Firme na sela do ginete arfante,

Da coorte na vanguarda, ei-la às hostis

Trincheiras que galopa, delirante,

Fronte serena e coração feliz.
 
Sob os anéis metálicos do guante,

Os dedos adivinham-se viris,

Que sustêm o estandarte palpitante,

Onde esplende a dourada flor-de-lis.
 
Rica de sonhos, crença e mocidade,

A donzela de Orléans, no seu tresvário,

De mística, na indômita carreira
Sorri. Nenhum tremor a alma lhe invade!

E, entanto, o olhar audaz e visionário

Já tem clarões sinistros de fogueira!...


Eis um poema bem construído, em nada inferior à média do que produziam os nossos neoparnasianos no ambiente cultural pré-1922. Os demais sonetos de Espectro mantêm esse nível.

http://ceciliameireles306.blogspot.com

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